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[Tubo de Ensaio - Oficium Laboratório de Jornalismo ]

03/10/2003

Musica Solidária


Em 1985, a professora de piano da UFMG, Tânia Mara Cansado, atendendo a um antigo desejo de trabalhar com crianças, ajudou a criar o Centro de Musicalização Infantil (CMI). "Criamos na UFMG um espaço que não existia no Brasil, escolas especializadas em educação musical para crianças. Em 1989 nós tínhamos até uma orquestra infantil" conta ela.

Entretanto a professora sentiu a necessidade de atender às crianças que não podiam pagar pelas aulas do CMI e em 1997 ela fundou a ONG Criança e Música e o projeto Cariúnas, que proporcionava aulas de musicalização e canto a crianças carentes em creches de Belo Horizonte. "O trabalho é o mesmo do CMI, mas não é pago", explica Tânia.

"Já chegaram para mim e disseram que as crianças não eram carentes. Foi o maior elogio que já me fizeram. Nós não trabalhamos para deixá-los como estavam. O princípio é a cidadania deles. As próprias crianças estão fazendo reuniões e discutindo suas questões", conta a professora.
Tânia diz que no início as famílias não tinham idéia do trabalho, então ela começou a trabalhar também com as famílias. "Se os meninos fossem cantar no teatro Sesiminas eu arrumava mais dois ônibus para os pais". Hoje o Cariúnas conta com a participação de mães voluntárias. "Eles tinham necessidade de ser egoístas, de cuidar só de si mesmos. A partir do momento que eles passam a levar algo, a levar a música, a auto-estima deles cresceu e os transformou em alguém. Nestes três anos mudamos as crianças e as famílias".

Projeto Piloto

O projeto piloto foi criado com o objetivo de dar continuidade ao trabalho nas creches, que têm idade limite e as crianças em geral só ficam até os doze anos. O projeto atende a 250 crianças da Sociedade Espírita Joana de Angelis e do Centro de Solidariedade Betina. Além disso, ha três anos 40 crianças selecionadas nas creches por apresentarem potencial compõe o projeto piloto, a Casa Cariúnas. As crianças têm aulas de dança, canto, musicalização, flauta doce, violão, teclado e, em 2003, aulas de flauta transversal, clarineta e saxofone. As aulas são ministradas por oito alunos estagiários da Escola de Música, com o apoio de quatro estagiárias selecionadas entre os atendidos pelo projeto.

Tânia diz que contou com a ajuda de sua irmã Térsia Cançado, dona da Academia Tutiforme, para incluir as aulas de dança no projeto. "A dança entrou como instrumento, a dança é a linguagem básica das classes baixas, o corpo é a primeira linguagem junto da voz. Todo músico deveria aprender dança", afirma.

A decisão de fundar a ONG foi principalmente por questões financeiras. "Na universidade o dinheiro não chega. O papel da universidade é entrar com o conhecimento. Então eu me aposentei e formei a ONG. Fiz uma parceria com a universidade".
Frutos

Aprovado no curso de Música/Licenciatura, no vestibular 2003da UFMG, Reginaldo Costa foi uma das crianças selecionadas pelo Cariúnas há cinco anos. "Foram três dias de festa com foguetório na região do Primeiro de Maio", conta Tânia.
Reginaldo foi descoberto quando fazia oficina de cestaria na Sociedade Espírita Joana de Angelis, entrou para o coral e nunca mais largou a música. "Oportunidade, foi o que Cariúnas representou para mim", diz Reginaldo.

Bem humorado Reginaldo conta ainda que o trabalho tem repercutido na comunidade. "Já piratearam o nosso CD na lojinha do bairro". O projeto, que nunca conseguiu ser aprovado em uma lei de incentivo à cultura, é mantido com dinheiro da Fundação CDL Pró-criança, Fundação Danilo Pena, da vendas de CD?s, apresentações pagas e doações, além de um grupo de associados. A Casa Cariúnas fica na rua Maria Adelaide nº 40, no Bairro Primeiro de Maio. O telefone para contatos é (31) 3462-3470.


Guto Amaral



03/10/2003 a 04/22/2003. Este Mural é de responsabilidade de:
Elton Antunes - Oficium Laboratório de Jornalismo - eantunes@fafich.ufmg.br