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[Animação Expressionista - Depto FTC da EBA]

02/21/2005

A CIDADE IMAGINÁRIA SAI NA COLEÇÃO DEBATES DA PERSPECTIVA


Qual o papel da cidade numa arte, a do cinema, que, mais que as outras, é capaz de apresentá-la "inteiramente" - fotografada, representada, recriada, estilizada, desenhada, pintada, modelada ou virtualizada? A CIDADE IMAGINÁRIA, conjunto de estudos que Luiz Nazario coordenou e a Editora Perspectiva publica em sua coleção Debates, propõe um tema que tange diversas áreas do conhecimento. Infinito como o próprio cinema, o tema da cidade imaginária não será esgotado nesta pequena coleção de ensaios que sintetiza dois seminários da linha de pesquisa Criação e Crítica da Imagem em Movimento do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFMG: Visões das cidades no cinema e Veneza no cinema, que discutiram, durante duas semanas em 2002, e uma em 2003, o papel das cidades em diversas obras cinematográficas. Cada pesquisador convidado escolheu seu objeto de estudo e desenvolveu suas reflexões a partir de alguns filmes-chave para a percepção do conceito proposto.
Em A cidade dos lunáticos, José Antônio Orlando recorda um pioneiro do cinema brasileiro cuja obra desapareceu: o italiano Paolo Cianelli Benedetti, que desenvolveu em Barbacena, a "cidade dos lunáticos", filmes inovadores inspirados na Viagem à lua (Le Voyage dans la Lune, 1902), de Georges Méliès; a cidade dos lunáticos serve de metáfora do próprio cinema, arte industrial que arruína seus gênios e exalta alguns até a loucura para logo mergulhá-los numa decadência estrepitosa, e na qual tudo é construído para ser destruído depois de fixado numa película tornada então preciosa, mas igualmente destinada ao desaparecimento.
Em O gueto judaico de Praga, Lyslei Nascimento revela como cidades fantásticas tornam-se ícones modernos graças à força de um mito que as envolve: o gueto d’O Golem (Der Golem, 1920), de Paul Wegener, inspirado na extinta judiaria medieval de Praga, é entrevisto como uma caixa dentro de outra caixa dentro de outra caixa, fascinante moldura para uma lenda que gerou outra lenda (a de Frankenstein), que gerou outra lenda - nossa realidade contemporânea, dominada pela informática, pela genética e pela robótica.
Em De Moscou a... Marte, Graziela Ravetti revisita a cidade futurista de Aelita (idem, 1924), de Iacov Protazanov - cineasta informado pelo expressionismo e pelo construtivismo, e que aí cria um possível símbolo de Nova York, cidade que inspirou a Metropolis (idem, 1927), de Fritz Lang, que por sua vez inspirará a cidade-mundo de Blade Runner, o caçador de andróides (Blade Runner, 1981), de Ridley Scott; podemos aqui perceber como as cidades perfeitas convertem-se, obrigatoriamente, em seu contrário, como se o pesadelo distópico já estivesse contido no sonho utópico.
Já em seu ensaio sobre Berlim, cidade moderna, Elcio Cornelsen analisa a tradução fílmica realizada pelo cineasta Rainer Werner Fassbinder do romance Berlim Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, na mini-série para a TV alemã Berlim Alexanderplatz (Berlin Alexanderplatz, 1980): se no romance expressionista de Döblin, a cidade moderna fervilha, tentacular e monstruosa, como palco de todos os crimes, Fassbinder prefere rodar a maior parte das tomadas de seu filme nos espaços interiores do estúdio, desprezando as externas na custosa cidade cenográfica que mandara construir. Sua Berlim encontra-se apenas dentro da alma dos personagens que a habitam.
Em Xanadu: o sonho americano, o tema do império pessoal e do lugar da afetividade na construção desse império é exaustivamente trabalhado por Miriam Volpe com base em Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), de Orson Welles. Um surpreendente paralelo entre o filme de Welles e o poema Kubla Khan, de Samuel Taylor Coleridge, enriquece o repertório das interpretações do mistério de Rosebud: os esforços dos poderosos habitantes das metrópoles em construir ilusórios e complexos impérios como tentativas vãs de dominar seu próprio destino e o de seus concidadãos.
Em Desconstruindo Veneza, Davide Falcioni examina uma vasta coleção de "cartões postais" cinematográficos de Veneza, prestando particular atenção à imagem da cidade em O talentoso Ripley (The talented Mr. Ripley, 1998), de Anthony Minghella, mostrando como ela serviu e ainda serve a um certo número de gêneros particulares de filmes.
Carlos Antônio Leite Brandão aborda, em Arquitetura da casa de todos nós, o papel essencial da casa na aldeia imaginária de Sacrifício (Offret, 1986), de Andrei Tarkovski, e que se apresenta aos nossos olhos como uma grande metáfora do mundo ameaçado pelo apocalipse nuclear. Seu ensaio introduz-nos numa sofisticada filosofia da arquitetura tendo como base a argamassa das imagens de cinema.
Em Nossa selva de pedra, Mariângela Paraizo passeia, heideggerianamente, pela cidade híbrida apresentada no filme Estorvo (1999), de Ruy Guerra, baseado no romance homônimo de Chico Buarque, cidade composta de três diferentes locações (Rio de Janeiro, Havana e Lisboa) e onde quatro línguas diversas (carioquês, português, portunhol, espanhol) convivem sem qualquer estranhamento.
Em A cidade transparente, Juliana Duarte Weinberg analisa em detalhes o filme Tempo de diversão (Playtime, 1967), de Jacques Tati, uma obra-chave na história do diálogo mantido pelo cinema, desde seus primórdios, com a cenografia e a arquitetura, tema de sua dissertação de Mestrado, que preparou sua própria construção de outra autêntica cidade imaginária na produção dos filmes de animação em 3D que dirigi e que formam a Trilogia do caos.
Alcebíades Diniz Miguel descreve, em Tóquio ciberpunk, a opção pela distopia revelada no romance Idoru, de William Gibson, cuja filosofia aparentemente crítica, mas no fundo conservadora e conformista, legitimadora da ordem tecnológica dominante, penetrará todo o cinema de ficção científica pós-moderno, encontrando na série Matrix (idem, 1999-2003) sua realização mais acabada.
Finalmente, em As viagens imaginárias, percorro, num breve panorama, diversas formas da viagem realizadas por cineastas visionários, que ora constroem um mundo inteiro dentro do estúdio, como Jacques Tati, em Tempo de diversão (Playtime, 1967), e Federico Fellini a partir de A doce vida (La dolce vita, 1960); ora preferem perder países para adquirir novas identidades, como David Lean em toda sua obra, e Pier Paolo Pasolini na Trilogia da vida (Trilogia della vita, 1971-1974). Abarcando uma ampla palheta de temas ao longo da história do cinema, analisando diversos filmes sob a ótica da crítica literária e da crítica de cinema, da filosofia pura e da filosofia da arquitetura, procuramos oferecer ao leitor deste pequeno volume um mosaico colorido sobre a cidade imaginária, esperando que este novo conceito encontre suas ressonâncias na imaginação dos futuros arquitetos de sonhos.

[Imagem: Modelos de JULIANA WEINBERG de uma cidade imaginária para o filme de animação TRILOGIA DO CAOS]


Luiz Nazario - luiz.nazario@terra.com.br


Referências:
- Editora Perspectiva


02/21/2005 a 04/28/2005. Este Mural é de responsabilidade de:
Luiz Nazario - Depto FTC da EBA - nazario@eba.ufmg.br